Segue abaixo artigo do Dr. Nicola Minervini sobre a atual situação das exportações brasileiras, quebrando o paradigma de que apenas devemos exportar quando a relação cambial nos é favorável. Vale a pena ler.
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| Por Nicola Minervini*
Como, exportar prá já? De que jeito? Com esse Real que todo dia vale mais, com o mercado interno aquecido, com todo esse “custo Brasil” em cima, com a famosa reforma tributária que nunca sai, com os gargalos da cadeia logística e dos entraves burocráticos, etc, etc, etc? Vamos dar uma olhada na situação: Europa em crise, Estados Unidos quase a beira da bancarrota, aqui entrando uma enxurrada de Dólares e Euros, seja para especular (com as fantásticas taxas de juro que temos por aqui) seja para investirem na Copa do 2014 (?), Olimpíadas, pré-sal, PAC, etc. (somos uma das poucas economias crescendo no cenário internacional e todo mundo lá fora quer um pouquinho): como vamos desvalorizar o Real? Nossas exportações se vendem mais por toneladas (commodities) e menos por quilo (produtos com alto valor agregado). É obvio que isso é perigoso para a saúde do nosso comercio exterior, pois os preços das commodities estão sujeitos à altos e baixos, o preço da “inteligência” (leia-se: design, processo produtivo, gestão da informação, presença nos mercados, etc.) tende sempre a subir. Continuando a exportar navios com soja ou carne ao preço de uma meia dúzia de containers de SUV’s, não vamos chegar longe! Mais uma pedrada: o pessoal lá fora (e nós orgulhosamente espalhamos isso), sabe que agora somos a 7ª potência econômica e se tudo correr bem (?) seremos a quarta potencia daqui a alguns anos. E daí? Daí, não somos mais um país em desenvolvimento e justamente nos tiraram o tal de SGP (Sistema geral de preferência), pois país rico não precisa disso. Que pena: a “bengala” do SGP nos dava uma entrada preferencial em vários mercados e agora nos cabe brigar em igualdades de condições (?) com outros Países ricos como nós! (da próxima vez, trataremos esse assunto da tal de potência, mais à moda mineira, muito discretamente, quase em silêncio!). Vários produtos industrializados brasileiros estão sendo substituídos por produtos chineses nos mercados tradicionais onde exportamos. Setor têxtil, brinquedos, plásticos, lâmpadas, embalagens, calçados, vestuário, bastante afetados. (veja, por exemplo, na Argentina onde os chineses estão nos tirando da jogada sobre muitos produtos, avançando em uma progressão geométrica: em 2003, o Brasil exportava para Argentina 8,6 vezes mais do que os chineses: hoje só ganhamos deles de 2,5 vezes – pode imaginar para quando será a ultrapassagem?) O pior, 45% das empresas brasileiras (dados da CNI) estão sendo afetadas pela concorrência de produtos chineses, aqui, no nosso quintal. Moral da historia: estamos vendendo para eles, em toneladas (matéria-prima) e importamos por quilo (produtos manufaturados)! É só esperar para ver como vai acabar esse jogo (o pior, sem regras e sem juiz, a quem talvez se poderia culpar!) Até agora nesse jogo já estamos perdendo de 4 a 0: 1X0 – não dá para fazer muito com o cambio dólar/real; 2X0 – aumenta nossa vulnerabilidade exportando commodities e perdendo exportações de manufaturados; 3X0 – jogando em casa, estamos perdendo feio para os produtos importados: empresas que fecham, industriais que viram comerciantes, desindustrialização; 4×0 – custo Brasil aumentando (salários, insumos, logística, etc.). Nos entrincheiramos nos problemas de sempre: rodovias cheias de buracos, aeroportos no colapso, portos ineficientes, impostos, reformas em “banho Maria”, burocracia que nem se fala, parceiros comerciais às vezes pouco confiáveis, concorrentes desleais, etc. Até agora falamos daquilo que está fora de alcance do dia a dia da empresa. Como sair dessa? Se insistirmos na situação conjuntural, então a receita é fácil: basta clonar o que fazem os países altamente exportadores. Aqui vai uma “lição de casa” que não é novidade para ninguém: • Qualidade, transparência da gestão pública e estabilidade institucional. Não somos nós que vamos sugerir tudo isso, pois é elementar, além do fato de que no máximo podemos sugerir, mas não podemos agir! O problema é que até fazer tudo isso que acabamos de indicar, talvez passe uma ou duas gerações, e nós como ficamos? Então, “mudamos de página” e vamos dar uma olhada se dá para reduzir os efeitos negativos dessa situação fora de nosso alcance. O que é que está ao nosso alcance? Dar uma “chacoalhada” na nossa empresa! (ou como dizem os experts uma “re- engenharização”. Prefiro chacoalhada, pois tem que se pegar a empresa e revirar de cabeça para baixo). Tenho certeza que vai ter muita coisa para mudar. Começamos pelo início: Como está nossa empresa; há quanto tempo que não lançamos um produto novo; há quanto tempo que o nosso produto não tem modificações; há quanto tempo não visitamos a maior feira do mundo do nosso setor para ver o que acontece no tal de mercado global; o nosso departamento de exportação conta com gente qualificada para isso, ou só tem alguém que fala algum idioma estrangeiro; quantos anos de uso têm nossas máquinas; temos terceirizado ao máximo; é viável uma “delocalização”; nossos processos produtivos estão atualizados; nosso pessoal está sendo treinado periodicamente; temos tirado pedido ou gerenciado a exportação; estamos na “zona de conforto” ou estamos pegando nossa maleta e garimpando os mercados; temos tendência mais para oportunismo ou para oportunidades; a exportação é meta de faturamento com lucro imediato ou é uma estratégia da empresa; temos sido agressivos como os chineses ou esperamos que alguém toque a nossa campainha; temos verificado se podemos intensificar o trabalho de “co-working” junto aos nossos fornecedores; temos comparado o preço de nosso produto com o preço no exterior do mesmo??? Porque tudo isso? Porque a competitividade começa na empresa! Eu posso viver no melhor país do mundo, um país onde até colocam o tapete vermelho para o exportador (como usa uma famosa linha de aviação brasileira para seus passageiros), mas se eu empresa não tiver cortado gordura internamente, não tiver uma visão global do meu negócio, uma atitude de médio longo prazo, uma cultura de internacionalização dentro da empresa (lembro que é muito mais difícil vender a idéia da exportação na empresa do que vender o produto lá fora), não vai adiantar ter “o tapete vermelho” se eu estou parado. Eu preciso ter uma velocidade natural pela minha competitividade “intrínseca“ como empresa; se depois tiver um empurrão, ótimo, vou aumentar a velocidade, mas devo ter uma velocidade mínima para aproveitar o empurre. Traduzindo: o maior responsável (quase sempre) da competitividade na exportação é a empresa: portanto, primeiro colocamos “a casa em ordem” e depois vamos, com mais moral, pleitear mais ajuda (o empurrão da conjuntura)! Pensamos por um instante como países onde existe um altíssimo custo de mão de obra, uma moeda forte, uma complicadíssima gestão do pessoal, conseguem ter saldo positivo na balança comercial de produtos manufaturados de centenas de bilhões de dólares (e não estou falando da China). Eles exportam “INTELIGÊNCIA” por gramas e não commodities a granel. Exportam competência de gestão, design, inovação tecnológica, custos ao mínimo, alta eficiência por pessoal treinado, o gosto para o bem feito, elevada terceirização, “delocalização”, empresas em redes, controle da distribuição, inteligência de informação, investimento em conhecimento de mercado, investimento em patentes e marcas. O assunto é: tem que vender por gramas e não por toneladas. Na Europa também tem produtos chineses e também fecharam um monte de empresas. Quais? As que tinham como vantagem competitiva o preço! E sempre terá um chinês com um preço a metade ou um quarto do seu. Se você competir por inovação, design, tecnologia, vai ter vida mais longa. Anos atrás tive acesso a um estudo feito por uma Associação de produtores de calçados em outro país de América Latina, cujo titulo era “Como parar a invasão chinesa” (um calhamaço de 165 páginas). É obvio que foi dinheiro jogado fora, pois as empresas que encomendaram esse estudo já não existem mais, pois não tem como “parar os chineses”. Por outro lado, uma outra associação de produtores, para moda, encomendou a um Instituto tecnológico e de gerenciamento, um estudo cujo titulo era ”Como melhorar a competitividade do setor de artigos de moda”. Vocês já adivinharam quem investiu melhor dinheiro e tempo! E então o que fazemos? Vamos continuar a resmungar a vida toda sobre cambio, reforma tributária, logística, e tudo o que falamos? Até que a situação se “normalize”, talvez já não estejamos por aqui! O negocio é arregaçar as mangas e vamos fazer um check-list na nossa empresa (como faz o comandante de um avião antes de sair do pátio de estacionamento para a pista de decolagem), vamos analisar a nossa competitividade interna, vamos pensando em alianças deixando de lado nossas virtudes latinas (individualismo por natureza, e desconfiados por vocação)! A esse propósito, experimente pensar: quantas empresas fecham por ser pequenas e quantas fecham por pensar pequeno? E, depois não precisa ouvir isso: você não tem alternativa! Não está conseguindo exportar pela “conjuntura”, está perdendo mercados lá fora duramente conquistados, aqui dentro do seu mercado já está perdendo posição. A pergunta é: até quando vai agüentar? Você precisa sair desse circulo vicioso: vai fazer uma visita na maior feira mundial do seu setor. Vai ser a forma mais barata para você elaborar seu plano de ação: se medindo com o mundo! A hora de exportar é agora, preparando-se profissionalmente. Essa situação de conjuntura não vai mudar logo e você está lutando contra o tempo. Pense em alianças, pense em novas características do produto, na embalagem, numa outra forma de vender, numa nova proposta da empresa, pense numa maior qualificação de pessoal, pense em novos mercados, pense que somos o povo mais criativo do mundo, (faça acordar em você aquela criatividade tropical pela qual somos tão famosos), pense hoje em exportar: amanha pode ser tarde! Boa sorte! *Nicola Minervini é consultor associado da Genesis Internacional e autor do livro “O Exportador”. |
FONTE: NETCOMEX



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